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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O triunfo da mediocridade

CLÓVIS ROSSI
Reação ao desastroso resultado do Brasil no exame Pisa mostra uma mentalidade pequena
Qual foi a pior notícia da sequência de números sobre o Brasil divulgados nas últimas 48 horas?
Para mim, não foi o 72º lugar na lista da Transparência Internacional. Trata-se apenas da confirmação de que 20 anos de governos dos dois partidos que se arrogavam o monopólio da virtude, PSDB e PT, não tiraram o Brasil da podridão secular.
Tampouco foi a última colocação no campeonato mundial de crescimento econômico. O retrocesso do terceiro trimestre já estava cantado e, portanto, só se espanta quem não presta atenção às coisas básicas.
Nem foi a desastrosa colocação no Pisa, o principal exame internacional de educação básica. Quem passou uma vez na calçada de qualquer escola pública e até de algumas particulares já sabia que não poderia ser muito diferente.
Pior que tudo isso foi a reação do ministro da Educação, Aloizio Mercadante, que, na CBN, considerou o resultado "um grande triunfo".
Essa avaliação é, isto sim, um triunfo da mediocridade que caracteriza a maior parte dos homens públicos brasileiros. Preferem sempre fazer propaganda em vez de reconhecer os fatos como os fatos são.
E como são os fatos? Responde Paula Louzano, pesquisadora da Faculdade de Educação da USP, em artigo para esta Folha:
"Quase 70% dos nossos jovens não sabem suficientemente matemática para continuar aprendendo na escola ou mesmo competir no mercado de trabalho, segundo padrões da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que reúne países industrializados). Isso porque eles não são capazes, entre outras coisas, de usar a informação de uma tabela ou de um gráfico para calcular uma média ou uma tendência".
Poderia ser pior, sempre segundo Louzano: "É ainda mais grave constatar que 23% dos brasileiros de 15 anos não participaram do Pisa. Esta é a parcela de jovens que estão fora da escola ou têm mais de dois anos de atraso escolar. Ou seja, se todo esse contingente estivesse na escola como deveria, os resultados brasileiros poderiam ser ainda piores".
Até entendo que o ministro não poderia vir a público e dizer "fracassamos mais uma vez". Fingir que tudo vai bem faz parte do jogo dos governantes, mas ele poderia ao menos fingir com algum pudor, em vez de dizer que "nosso filme é muito bom". Fica ridículo.
Espero que, longe de câmeras e microfones, o pessoal do MEC avalie honestamente as causas do fracasso.
Contribuição para essa eventual avaliação, extraída de artigo para "El País" de Jaime Rivière, professor de Sociologia da Universidade de Salamanca.
Ao tentar entender os bons resultados dos países asiáticos, ele aponta como uma das possíveis causas "níveis de autoexigência e de respeito à autoridade do professor que não existem no mundo ocidental, e que supõem resultados melhores com o mesmo esforço público em educação".
Para quem, como eu, estudou em escola pública a vida toda, parece ponto essencial: devolver ao professorado o respeito reverencial que tínhamos por eles, além, como é óbvio, de salários dignos.
Fonte: Folha, 05.12.13.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Brasil melhora em matemática, mas segue entre piores do mundo: País liderou avanço em exame internacional em nove anos, mas tendência perdeu força após 2009

Desempenho não foi suficiente para tirar Brasil das últimas colocações --em 58º lugar entre 65 países
FÁBIO TAKAHASHISABINE RIGHETTIDE SÃO PAULOFLÁVIA FOREQUEDE BRASÍLIA
O Brasil é o país em que os alunos mais avançaram em matemática nos últimos nove anos. Ainda assim, segue entre os piores do mundo --e a melhoria perdeu força entre 2009 e 2012.
O panorama está presente nos resultados do principal exame internacional da educação básica, o Pisa, que avalia alunos de 15 e 16 anos em matemática, leitura e ciências (idade referente ao ensino médio brasileiro).
A média do Brasil em matemática subiu de 356 para 391 pontos (ganho de 9,8%) entre 2003 e 2012. No período, a média dos países ficou estável --foi de 486 para 487.
É como se o aluno brasileiro de agora tivesse quase um ano a mais de escolarização do que o de 2003.
O desempenho, porém, não foi suficiente para tirar o país das últimas colocações. Está em 58º lugar, entre 65 países, atrás de Cazaquistão, México e Uruguai. E à frente de Colômbia e Jordânia.
A maioria dos alunos brasileiros não consegue acertar uma questão em que é preciso apenas interpretar dados num gráfico com barras, sem necessidade de cálculos.
Outro problema é que, apesar do forte crescimento em nove anos, o ritmo desacelerou recentemente. Se de 2006 para 2009 o avanço foi de 16 pontos, no triênio seguinte caiu para 5. A prova é aplicada a cada três anos.
O relatório da OCDE (entidade que reúne países desenvolvidos e organiza a prova) afirma que cerca de metade do ganho na média entre 2003 e 2012 se deve às melhorias socioeconômicas no país. A outra metade coube a melhorias no sistema de ensino.
DEBATE
"Nossa fotografia ainda não é boa e não temos que nos acomodar. Porém, o nosso filme é muito bom", afirmou o ministro da Educação, Aloizio Mercadante.
Cabe à União induzir políticas de melhoria nas redes --mais de 80% dos alunos estão em escolas estaduais.
Para o ministro, as Olimpíadas da Matemática foram um dos fatores que ajudaram a melhorar as notas na área. "Isso gera autoestima."
Diretora-executiva da ONG Todos pela Educação, Priscila Cruz diz que tem mobilizado as escolas em divulgação de dados que mostram problemas na disciplina.
O pesquisador Naercio de Aquino de Menezes (do Insper e da USP) destaca que o país tinha condições de dar um salto porque o desempenho era muito baixo. "Só recuperamos o atraso."
O Consed, conselho que reúne os secretários estaduais de Educação, diz ser difícil eleger uma iniciativa como explicação, pois há ações espalhadas pelos Estados.
PÚBLICO x PRIVADO
Avaliadas separadamente, as redes federal e particular têm desempenhos melhores que a média brasileira. As federais têm desempenho compatível com a média da Itália (32º). Já as particulares são compatíveis com Israel (41º).
Em leitura, o Brasil está em 55º e, em ciências, em 59º. As três matérias são avaliadas, mas nesta edição o foco das análises foi matemática.
Nas duas disciplinas, o país também melhorou se considerado os nove anos, mas o avanço perdeu força. Cerca de 20 mil alunos brasileiros fizeram a prova.